Sexualidade, O Diálogo é o melhor caminho

Eles vão transar agora: a vida sexual está começando com muita informação e pouca proteção contra Aids e gravidez. Pode estar faltando conversa dentro de casa

Quase sempre espectadores dispersivos, daqueles que abusam do controle remoto, os adolescentes foram reduzidos por uma safra de programas sobre o assunto que mais os aflige, depois de espinhas inoportunas: sexo. A nova atração da safra de debates calientes, que já conta com várias alternativas na programação.

A garotada adora esse estilo espontâneo de falar da intimidade em público, mas muitos pais sentem um frio na espinha. Seus filhos fazem parte de uma geração que experimenta o sexo cada vez mais cedo no Brasil, em torno dos 16 anos e corre risco de vida por distrações que no passado resultavam, na pior das hipóteses, em gravidez indesejada. Os adolescentes de hoje ouvem mais sobre sexo do que jamais sonharam seus pais e avós, mas o índice crescente de gravidez de meninas de 13 a 19 anos indica um despreparo alarmante.

Do total de partos realizados em 1997 no Brasil, 25% eram de adolescentes, contra 23% dois anos antes. Ao manter relações sexuais sem nenhum contraceptivo e, evidentemente, sem camisinha, 680.400 garotas e um número igual de parceiros homens expuseram-se ao risco de contrair HIV. Na faixa de 13 a 19 anos, os casos de Aids ficam em torno de 2% do total, o que não parece tanto. Mas esse número salta para 32% dos doentes, na faixa dos 20 aos 29: provavelmente, o tempo que a doença demorou para se manifestar em ex-adolescentes distraídos. Diante de tanto perigo, é inevitável que, pela enésima vez neste século, pais e mães repitam a pergunta clássica: onde foi que nós erramos?

Missão perigosa. Como em quase todas as questões de educação, seria injusto atribuir aos pais toda a culpa ou todo o mérito pelo comportamento de um jovem. “Educar é uma missão arriscadíssima”, lembra a psicóloga Lydia Aratangy. “Você precisa educar hoje com a bagagem de ontem para os filhos enfrentarem os desafios de amanhã”. Mas, diante da fartura de informação que se oferece hoje fora de casa, em campanhas, nas escolas, em serviços telefônicos e em sites da Internet, é razoável pensar que as conversas em casa estão em falta. Ou andam fora do tom. E nesse caso, perguntar onde está o erro pode ser o caminho do acerto.

No meio desse caminho existem algumas pedras. Uma delas é que, também para os adultos, sexualidade não é um assunto inteiramente tranquilo. Apesar de uma auto-imagem lisonjeira, os pais de hoje ainda não sabem falar de sexo com os filhos. “A geração de 40 e 45 anos foi criada num mundo onde era proibido falar disso. Nessa área, nossa referência é o medo”, diz a psicóloga Maria Helena Gherpelli.

O jogador do São Paulo Raí de Oliveira viu o filme da gravidez precoce se repetir em sua vida. Depois de ser pai aos 17 anos, tornou-se avô aos 33, quando a filha mais velha, Emanuella, 15 anos, de seu casamento com Cristina, engravidou. “Eu falava de sexo com ela e de como foi difícil ser pai tão jovem. Eu resolvia suas dúvidas, mas a deixava à vontade para perguntar”, afirma Raí. Com espaço em casa para falar de sexo, a gravidez de Emanuella o surpreendeu. “Eu não esperava. Foi um acidente porque ela não tomava pílula, já que o namorado morava no Brasil e ela tinha chegado da França há pouco.”

A orientação que Érika Lemes da Silva, 16 anos, recebeu de sua mãe, Eva Lemes, foi que transar antes do casamento era pecado. “Nunca lhe falei de métodos anticoncepcionais, pois achava que estaria abrindo um caminho. Mas sempre lhe disse que devia se guardar até o casamento”, conta a mãe. Aos outros dois filhos, de 16 e 17 anos, ela recomendou cuidado com a Aids e providenciou sempre o dinheiro para a camisinha, cuidado que ela achava desnecessário tomar com a filha, pois achava que ela se manteria virgem até o altar. Érika engravidou aos 15 anos, ao transar com seu segundo namorado. Casou e é mãe de Steffani, de quatro meses. “Quando comecei a desconfiar que estava grávida não quis mais ir à escola. Tive muita vergonha, medo e raiva do meu namorado.”

Os bebês cresceram! Não são apenas valores antigos que atrapalham os pais. A adolescência dos filhos é um momento de grande insegurança. “Eles aceitam com dificuldade que seus bebês estão se tornando adultos”, diz a ginecologista Albertina Takeuti, do Programa Integral de Saúde do Adolescente, do Estado de São Paulo, que atende 460 municípios. Os pais não querem enxergar. “Posso dizer que só 20% deles sabem da vida sexual de seus filhos, 50% pensam que sabem e o resto tem medo do que suspeita”, diz Albertina.

Para tornar o contato ainda mais complicado, nessa fase os pais, se não forem os vilões, certamente não são mais os heróis na vida dos filhos, a essa altura vivendo as emoções da vida em tribo. Não é com os pais que a maioria quer falar de sexo. “O ideal é conversar sempre com seu filho, desde a infância. Criar esse canal de uma hora para outra é mais difícil”, diz a ginecologista Albertina Takeuti. “Eles não querem compartilhar seus problemas com adultos, pois contestam o modelo familiar”, diz o psiquiatra Jairo Bauer.

Direito ao silêncio. “Não me sinto obrigada a falar tudo para minha mãe, sou até bem fechada”, diz Cinthya Rachel, uma das apresentadoras do programa Turma da Cultura. Seu companheiro no vídeo, Pedro Bacellar Suppo, faz o mesmo. “Não é porque sou livre em casa que vou sair contando tudo.” Adriano José Scaglia, 15 anos, que em outubro fugiu de casa com a namorada, Maria Clara, tem uma posição firme sobre sexo: “Não gosto de falar, só de praticar”, diz Adriano. Ele preferiu aprender na televisão a ouvir a mãe. “Ela conversava comigo e entrava em detalhes, na cara dura. Mas eu ficava com vergonha e não deixava ela continuar.” Sua namorada, Maria Fernanda, também escapuliu das tentativas de aproximação da mãe. “O papo não ia adiante mais por vergonha minha”, reconhece. Poder escolher quando e com quem falar é um direito, acredita-se hoje, desde que a gama de escolhas inclua uma fonte de informação mais segura do que a turma.

Valeria Polizzi, 27 anos, que contraiu Aids aos 16, ao transar com o primeiro namorado e contou sua história no livro Depois daquela viagem (Ed. Ática, 17ª edição), é uma das vozes mais autorizadas para falar de sexo na adolescência. Ela agora dedica todo o seu tempo a trabalhos de prevenção. “Meus pais eram bem abertos; eu é que não queria conversar com eles”, explica Valéria. “Eu costumo falar nas minhas palestras que os jovens têm de cobrar essa informação da escola”, ela conta. “Uma amiga pode não saber direito e ensinar errado”, explica. Uma convivência tranquila com filhos adolescentes é difícil, mas não impossível. A escritora Ledusha Spinardi, 44 anos, mãe de Nina, 13, acredita que conseguiu uma relação de confiança sem trocar o papel de mãe pelo de “amigona”.

Quando se atrapalha com alguma pergunta pede um tempo para pensar. “Não faço aquele estilo pedagógico do sexo das abelhinhas”, ironiza Ledusha, que engravidou aos 16 anos numa cidade do interior e sofreu muito por isso. Giovanni Malta Rubin, 14 anos, tem com quem falar. “Eu perguntava para os meus pais, para os amigos e os amigos do meu irmão, que são mais velhos”, diz. Giovanni. Ele ainda não transou mas anda sempre com camisinha na carteira. “Tenho certeza de que vou usar, mesmo porque já está à mão.”

Angela Figueiredo, 37 anos, é mãe de Diana Bouth, 18. Para Diana, a mãe é a melhor amiga. Na primeira vez que transou, foi a mãe quem soube primeiro. “Lembro da carinha dela, enquanto eu estava tomando banho.

Veio me contar com o sorriso mais lindo que eu já vi”, diz Angela, casada há dez anos com o titã Branco Mello. Para Angela, a abertura se deve ao fato de que o assunto nunca foi tabu em casa.”Quero saber o que minha filha está pensando.” Diana conta que fica tão à vontade ao conversar com a mãe que ela chega a lhe pedir que não entre em tantos detalhes. “Não gosto de saber intimidades sexuais nem das minhas amigas”, explica Angela.

Para a maioria, contudo, garantir prevenção ao adolescente é complicado. Um dos motivos, lembra a psicóloga Lydia Aratangy, é que eles não têm pressa em tornar-se adultos, porque o futuro é pintado com cores muito sombrias. “Quantas vezes ouviram comentários como ‘aproveitem agora, porque depois’”, lembra Lydia.

Inatingíveis. Outra razão é o apego à idéia mágica de que o mal só acontece com os outros. Isso explica por que o adolescente conhece os métodos anticoncepcionais mas não os usa como deveria. “Nosso maior desafio é fazer com que o conhecimento deles se transforme em autopreservação”, diz a médica Albertina Takeuti. Reproduzindo o que se tornou um refrão na vida de muitas mães, a psicanalista Maria Clara Pellegrino, 49 anos, mãe de Maria Eduarda, 12, costuma repetir à filha: “Se quiser transar, tudo bem, mas, pelo amor de Deus, de camisinha.”

As escolas também têm feito grandes esforços para isso. Educação sexual deixou há muito de caber nas fronteiras daquela aula de biologia, ilustrada por um útero e dois ovários desenhados na lousa. O Ministério da Educação recomenda que sexo, assim como ética e cidadania, sejam temas abordados por professores de todas as matérias sempre que surja oportunidade. Isso não quer dizer que todos sejam sempre capazes fazê-lo. “Quem não está à vontade com a própria sexualidade, dificilmente pode orientar bem”, diz Maria Eugênia Lemos Fernandes, da Associação da Saúde da Família, uma ong dedicada à prevenção da Aids. Esse problema também vem sendo enfrentado.

Pelo telefone. No colégio Bandeirantes, em São Paulo, um grupo de professores do segundo grau está recebendo capacitação para debater sobre questões sexuais em sala de aula. Assistem palestras e discutem estratégias. O trabalho existe desde 1992, da quinta à oitava série. “Os professores não devem fazer julgamentos e, sim, informar corretamente”, diz a professora Maria Estela Zanini, coordenadora do programa Convivência em Processo de Grupo (CPG), que trata de debater sexo e drogas. O Bandeirantes também tem uma página na Internet onde há o serviço Sex chip, que responde dúvidas sem que os adolescentes precisem identificar-se. Os serviços telefônicos desse tipo estão crescendo.

Alguns podem ser frustrantes. No Disque-Adolescente, do Estado de São Paulo, que deveria funcionar das 10 às 14 horas nos dias úteis, a única informação que os consultores receberam, na semana passada foi: “A mulher não veio.” No Instituto Kaplan, de sexologia, 12 profissionais (médicos, psicólogos e enfermeiros) respondem a cerca de 20 ligações por dia, de todo o Brasil. Cinquenta por cento são de adolescentes. As meninas querem saber se estão grávidas. Os meninos perguntam sobre o tamanho do pênis.

Projeto e auto-estima. Para a psicóloga Maria Helena Gherpelli, nada e ninguém podem substituir o diálogo com os pais.

“Conversar sobre sexo é papel dos pais e não da tevê. Os meios de comunicação dão uma ajuda”, diz. Não falta só conversa sobre sexo. Na verdade, é importante falar da vida com os filhos. “É preciso que os jovens tenham auto-estima e um projeto de vida, para querer se proteger.

A adolescente que não acredita em si mesma não exige uso de preservativo e cede à sedução do parceiro”, alerta a psicóloga Maria Helena Gherpelli. Uma menina e um menino que tenham um projeto de vida pensam duas vezes antes de arriscar-se numa relação sexual sem métodos contraceptivos.

PAIS: Para saber conversar

1 O ideal seria que sexo fosse discutido como qualquer assunto. Faça das conversas uma constante ao longo da criação de seus filhos. Ouça, responda perguntas, não prepare um seminário.

2 Se nunca conversou, evite chegar como quem sabe tudo. Isso gera desconfiança e um sinal de vigilância. Exponha sua fragilidade.

3 Aproxime-se primeiro do mundo de seu filho. Experimente ouvir um disco dele. Convide-o para assistir a um filme que resulte numa conversa. Leiam o mesmo livro. Mostre suas fotos de adolescente.

4 Não é vergonha dizer que se constrange ao falar de sexo. Pode ser como falar outra língua. Mostre que, apesar das dificuldades, está por perto.

5 “Usou camisinha?” é o tipo de pergunta inútil. Sugira o uso, compre algumas e dê. Essa atitude pede uma conversa antes.

6 Não tema impor limites e abalar seu ibope com seu filho. O conflito entre pais e filhos existirá sempre e é necessário.

7 Evite o discurso de que a camisinha é maravilhosa. Não funciona. Reconheça a dificuldade de usá-la, mas insista que é pela vida.

8 Evite frases desastrosas como: Isso é coisa de adolescente, no meu tempo…, você ainda vai me agradecer…, pensa que a vida é uma festa? Sou sua mãe (pai) e sei o que é melhor para você! São expressões que têm o dom de cortar a comunicação com o adolescente.

FILHOS: Para começar a transar

1 Se o garoto quer e a garota não. Para ele: Para a relação ser legal depende de os dois quererem. É melhor esperar que ela se sinta segura. Para ela: Não transe só porque ele quer ou porque tem medo de perdê-lo. Se tomar essa atitude, vai culpá-lo depois e perdê-lo de qualquer jeito.

2 Se ela transou e teme ser chamada de galinha. O apelido é para quem transa ou fica com parceiros demais. Promiscuidade não é transar, mas não saber selecionar.

3 Se ele não quer transar, mas é pressionado. Embora seja angustiante, não se preocupe. Espere a possibilidade de sentir-se pronto, o que só você perceberá. Respeite seu ritmo.

4 Quando a menina fica grávida. Espera-se que as adolescentes não fiquem grávidas porque queima etapas da vida e pode atrapalhar projetos. Uma gravidez não impede, mas pode dificultar realizações futuras. Há pessoas que vivem essa experiência com sucesso e outras que se prejudicam. O apoio dos pais e dos colegas é fundamental.

5 Se ela ou ele temem sugerir a camisinha. Usar camisinha não é mais um gesto de desconfiança, mas de proteção com o outro e si mesmo. Ninguém deve se intimidar em tê-la. Uma forma de a garota combater o medo de ser malvista é estar convicta de que quer estar viva e sadia. Se houver resistência, é bom avaliar se a relação vale o risco.

6 Se você teme falhar na hora do ato sexual. É um medo grande, mas pede cabeça fria. Não exija de si mesmo um desempenho de alguém experiente. Se falhar, isso não aconteceu só com você. Insista.

7 Se você quer conversar com seus pais. Pergunte como era no tempo deles. Comece com perguntas gerais para criar um canal íntimo. Escrever é uma boa saída, mas até enxugar a louça ou lavar o carro ajuda na aproximação.

Celso Fonseca e Marta Góes

Ajudou? então deixe um comentário, não precisa se identificar. Eu também ja passei por isso.

SexShop

2 Responses to “Sexualidade, O Diálogo é o melhor caminho”


  1. 1 Brennda 2008 às 2:52 am

    bom eu quero e ele que. sou virgem e ele não. mas eu quero saber se vou sentir alguma dor ou algo do genero?. e é claro que vamos usar camisinha se for acontecer.
    Obrigada.

  2. 2 Rafaela 2009 às 12:28 am

    Estou namorando a 8 meses e eu e ele estamos querendo ter a primeira relação. Eu sou virgem e ele não. Quero saber como faço pra falar com a minha mãe pois quero que ela fique siente de tudo mais na hora da um frio na barriga e a coragem nao deixa. Me deem um dica por favor !
    Obrigado


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




:::::REDAÇÃO:::::
Você ainda tem dúvidas, Faltou algum assunto ou quer nos contar alguma experiência sua??

Escreva para:
sexualidade @ wrg.com.br

Nosso Motivo de Orgulho!

  • 177,622 Visitas de nossos Leitores

%d blogueiros gostam disto: